Punta Arenas, Chile
Aí um dia, quando eu chamava o amor (de qualquer natureza) de monstro - ante sua grandiosidade, força, superpoderes, encantamento, ojeriza e medo perene - eu descobri a palavra platonismo. Fora como se tivesse assinado um contrato lúdico de trégua para com um outro que eu desenhava à frias carnes. Todos os meus - não - amores mas os ideais que tinha para com eles pertenciam a mim e, cabia a mim, a peleja entre criatura e criador.
Não que a dor fosse menor ou inconsistente, muitas vezes chegava a desgastar o físico interrogativo sobre que tipo de guerra e com quem travava. Mas não existia o outro em matéria. Eu não o feria mesmo que estivesse em vivas chagas pela sua existência.
Era como ter engravidado de si mesma e jamais desse à luz por medo de perder o filho na claridade. Então sucumbia a criatura em ventre escuro e maculado por um amor ao contrário; de presa.
Aí um dia, eu quis desaprender a amar assim. E comecei a parir cacos de amor pelos cantos mais inóspitos das pessoas, nas pessoas mais impróprias, em qualquer canto. E não achei graça nenhuma em ouvir um, "veja bem....", reticente e cheio de silêncio. No desencantamento ao chegar, pois a ansiedade havia esmagado os pequenos detalhes da estrada. Os pedaços de terra, as porções de gente. Havia cansado os olhos que desbotaram a paisagem.
A expectativa que tem pedigree, cria padrões perfeitos e hálito de menta me impediu de gostar de cara, do novo e sua coleção de estórias, sua camisa estranha. Aquela cidade que saiu do postal e pôs-se inteiramente nua, entregue , também fugiu do photoshop, perdeu as curvas e as cores gritantes e, ao engolí-la, salobra, me esqueci do quão rara são suas construções e seus montes chapiscados. E meus olhos de desencanto demoraram para ver o que enxergavam, enxertados de acúmulos e medo. Medo de gostar do gosto da àgua, de se acostumar com a língua e ter que se reinventar, treinar todos seus mecanismos de novo, para o amor novo. Guardar novos nomes, datas e endereços. Trocar os nomes dos filhos e escrever poemas para outros destinatários.
Aí hoje, eu me desapeguei de controlar se assim ou assado. Se prefiro a magia do amor criado ou a aspereza do amor de tato. Melhor caminhar com as duas alternativas, mesmo que seja à primeira que mais recorro. Por medo, modos, por decoro. O vazio é o melhor meio de transporte para quem tem coração cheio.
11/12/09 - F-
quinta-feira, 25 de março de 2010
Para as próximas
Punta Arenas, Chile
Volto, com a metade das tarefas ainda por cumprir. Não procurei as suas pistas e, tampouco, alimentei os cachorros de pelugens grossas e olhos mansos, que desfalecem-se sem pompas e olhares de espanto pelas esquinas. Não terminei a cidade de onde crê-se, que finda-se o mundo. Ainda estou a tateá-la pelos vãos dos dedos, pela nesga dos vãos das encostas, agora mais escuras por ser de onde há noite.
Temo demorar a acostumar com a escuridão que cobre o dia, penso ter gostado de ter sempre uma lasca de sol a mais a insinuar todos as entradas e saídas das beiradas das pessoas, e também das casas, que tentam rubrorizar os mais grìs dos dias. O que parecia esconder aparecia. Rugas, ramelas e uma nódoa de fruta ácida. A minha solidão em festa, em fase de descoberta, e o espaço vazio nas poltronas verdes.
Meus passos cambaleantes de quem memoriza ladrilhos e placas de comércio, iam, pé ante pé, a esmagar sombras. E nem o reflexo do mais colorido espelho continha-se a graça da fumaça que a respiração causava. E lá ia a fumaça, sem um pingo de graça, delatar os mais contidos dos pensamentos: café de lavar meia é caro! Cachorro de rua é bonito no azul! Esse branco dá quase Londres! Essa escada eu chamaria de Rute, para não chamar de Caracol! Chapéu de velho é igual vento, sempre me trás um cheiro!
E fumava pela espera, pela áspera atendente que agonizava em pisadas mancas e nunca alcançava meu suplício de sede agreste. Mesmo que pela mais austral e quente das cervezas. Embrulhando meus pápeis de escritos míseros, onde mais compunha uma ladainha para chegar aos ponteiros, destoando toda a letra torta de grafia estanque. Um, dois, três, riscos de cortar os tubos dos tinteiros. Valia-me assim de espreitar demoras, e conceder um perdão por também desprender-me da hora, em trabalhos tais, como tantos, mancos de precisão.
O que preciso, é tã incerto quanto quem parte e acha que volta inteiro!
Bom sábado! (05/12/09 - F) Sem acento
Volto, com a metade das tarefas ainda por cumprir. Não procurei as suas pistas e, tampouco, alimentei os cachorros de pelugens grossas e olhos mansos, que desfalecem-se sem pompas e olhares de espanto pelas esquinas. Não terminei a cidade de onde crê-se, que finda-se o mundo. Ainda estou a tateá-la pelos vãos dos dedos, pela nesga dos vãos das encostas, agora mais escuras por ser de onde há noite.
Temo demorar a acostumar com a escuridão que cobre o dia, penso ter gostado de ter sempre uma lasca de sol a mais a insinuar todos as entradas e saídas das beiradas das pessoas, e também das casas, que tentam rubrorizar os mais grìs dos dias. O que parecia esconder aparecia. Rugas, ramelas e uma nódoa de fruta ácida. A minha solidão em festa, em fase de descoberta, e o espaço vazio nas poltronas verdes.
Meus passos cambaleantes de quem memoriza ladrilhos e placas de comércio, iam, pé ante pé, a esmagar sombras. E nem o reflexo do mais colorido espelho continha-se a graça da fumaça que a respiração causava. E lá ia a fumaça, sem um pingo de graça, delatar os mais contidos dos pensamentos: café de lavar meia é caro! Cachorro de rua é bonito no azul! Esse branco dá quase Londres! Essa escada eu chamaria de Rute, para não chamar de Caracol! Chapéu de velho é igual vento, sempre me trás um cheiro!
E fumava pela espera, pela áspera atendente que agonizava em pisadas mancas e nunca alcançava meu suplício de sede agreste. Mesmo que pela mais austral e quente das cervezas. Embrulhando meus pápeis de escritos míseros, onde mais compunha uma ladainha para chegar aos ponteiros, destoando toda a letra torta de grafia estanque. Um, dois, três, riscos de cortar os tubos dos tinteiros. Valia-me assim de espreitar demoras, e conceder um perdão por também desprender-me da hora, em trabalhos tais, como tantos, mancos de precisão.
O que preciso, é tã incerto quanto quem parte e acha que volta inteiro!
Bom sábado! (05/12/09 - F) Sem acento
Feliz vinte-dez
Imagem: Bruno Cecim
Um dia da eternidade bem parece caber todo na gente por algumas horas. Mas depois vaza. Nasci rasa demais para guardar tanto. Aguardar tanto. Posto que ainda na condição de chama, só serei imortal enquanto dure. E ature o peso das coisas e dos dias e em manhãs como hoje, até a fluidez do novo e seu massacre lento das horas arrastadas, nesse ano do Tigre.
Que mesmo com o passar do tempo e o desgaste da retina, vc tenha olhos de encantamento. E o ano faça-se - apesar de vc - e te arrebate naqueles momentos onde apenas quem tem mais fé do que esperança, consegue arrastar as cortinas e perceber que era ela que impedia o Sol de entrar.
1º de janeiro de 2010 (F)
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